UM CORAÇÃO QUASE ILESO

E aí que ele me convida pra ir num bar ouvir um jazz. Meu estômago virou do avesso. Como se a felicidade, difícil de digerir, tivesse se tornado, de repente, enjôo. E eu tentando inutilmente me convencer que tinha algum controle da situação. Dentro de algumas horas eu iria entrelaçar meus dedos em seu cabelo bagunçado, morder aquela boca-coração com nuances avermelhados que combinam perfeitamente com seu rosto magro, emoldurado pela sua barba-mal-feita tão bem feita.

Não consigo mais trabalhar. Não consigo pensar numa roupa que não me deixe gorda. Não consigo pensar em nada além de cada centímetro do meu corpo cabendo perfeitamente na ponta de sua língua.

Minha ansiedade vai corroendo o resto que a úlcera deixou.

O baterista toca alto, enquanto eu conto minhas histórias e ele finge que escuta. Me chama de doidinha e de linda na mesma frase e diz que tem medo de mim mesmo eu sendo delicada.

– Nossa, você é bonita de doer o olho. Sentamos na pior mesa, não consigo te beijar, vamos embora?

Vamos. É claro que vamos.

No caminho fico tentando arrumar uma desculpa pra mim mesma pra não entrar dentro daquele quarto, engolir ele inteiro com uma chave-de-perna e ficar ali, roendo seus ossos enquanto ele dorme.

E eu digo, claramente numa mentira sincera, que entro, mas só para ficar um pouquinho.

Toca o disco do Phoenix pela décima oitava vez com barulho de chuva artificial e ele olha pra mim querendo dizer  “Não me odeie quando eu for embora e pedir pra você me esquecer?” Eu, como que por telepatia, respondo que está tudo bem.

Mas, ia ser tão bom se ele ficasse.

Ficamos ali acordados até que a noite virasse dia. Rindo um da cara de bobo do outro, ele me chamando de maluca, eu ficando com os dedos dos pés amortecidos e perdendo toda minha dignidade em cada gargalhada que ele dava.

“Dorme, lindinha, amanhã você trabalha.” Então eu viro as costas e ele me abraça de um jeito que só ele saberia, e eu fico ali, tentando pensar em algum jeito de sair daqueles braços com o coração ileso.

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