SOBRE O CARNAVAL

E aí que um dia resolveram inventar que tudo bem sair desfilando pelado na avenida. Encher a cara é status. Todo mundo acha lindo. Pais não pensam em tirar as crianças do sofá. É tudo festa, tudo pode. As tradicionais máscaras carnavalescas vêm bem a calhar numa época do ano em que o bom senso fica literalmente mascarado. Não, não vou dar uma de chata que reclama até do Carnaval- bem dele que nos dá os santos 2 dias e meio de folga quando achamos que o ano já começou rápido demais e que precisamos de uma pausa pra colocar óleo nas engrenagens e então, oficialmente, começar tudo de novo. Sempre gostei do Carnaval por ser o mais longo feriado do ano. Mas sempre achei uma chatice sem tamanho os desfiles na TV, com sambas-enredo que parecem sempre falar das mesmas coisas, com as mesmas músicas, as mesmas bundas, as mesmas cores e os mesmos excessos de uma existência improdutiva.

Mas o que mais me deixa intrigada sobre o Carnaval, é a capacidade de um povo ser tão soltinho e tão conservador ao mesmo tempo.

 Passamos o ano todo achando um absurdo falar de sexo, uma pouca vergonha viver um relacionamento aberto e uma baixaria dois homens se beijando no metro. E aí, quando chega o Carnaval, todo mundo veste suas máscaras de liberais e saem pela avenida, como se fôssemos mesmo um povo super aberto e evoluído que lida tão bem com assuntos como a sexualidade, a ponto de achar tranquilo se libertar de seus trajes sufocantes e exibir seus corpos nus pela avenida. Só que não. Só pensamos assim em três dias do ano. Em todo o resto, voltamos para o nosso posto de careta e abandonamos nossas máscaras de liberais.

Acontece assim também com a história de poder sair beijando geral. E aí sempre que você fica com alguém, tem a certeza absoluta que beijou por tabela pelo menos mais uns 20. Perguntar o nome é luxo. O barato mesmo é sair trocando saliva e roçando a língua nas línguas alheias, sem contar nas outras partes do corpo. O cara que você beijou pode ser aquele sujeito com quem você não aguentaria trocar meia dúzia de palavras se estivesse em sã consciência e que ainda por cima tem uma herpes querendo estourar no cantinho da boca, mas quem vai pensar nisso depois da terceira garrafa. E aí você volta do carnaval e fala que aquela amiga que resolveu dar para o cara com quem saiu apenas uma vez está se desvalorizando.

Carnaval é a época em que tudo fica em off, tudo é perdoado, nada é recriminado. Os tabus perdem as forças. Não tenho absolutamente nada contra liberdades – pelo contrário, acho mesmo que as pessoas deveriam fazer tudo aquilo que têm vontade, desde que não prejudique o outro. Mas tenho tudo contra os fechamentos das mentes depois que o feriado acaba. É como o cara que zoa até morte quem gosta de travesti mas que, no fim do expediente, quando ninguém está olhando, dá uma passadinha na Indianópolis para pagar por um boquetinho feito pela Samantha. Ou seja, sua opinião muda de acordo com o momento.

E aí quem vê de fora, tem certeza que o Brasil é realmente o país de pessoas evoluídas e mais abertas. Mas para quem vê de perto, é fácil constatar como ainda somos tão preconceituosos e retrógrados em diversos assuntos. Corpos cobertos por um tapa-sexo estampam páginas de jornais e as telas da TV. E tudo bem. Liberdade hipócrita. Tédio sacudido. Queria ver toda essa abertura na vida real e não somente na ficção. Cadê espaços na mídia para falar de sexualidade com os jovens? Cadê espaço no horário nobre pra mostrar novas alternativas de relacionamentos para as pessoas que não se encaixam nos poucos modelos existentes? Cadê espaço na TV para discussões que mostrem que as pessoas não precisam se preocupar em ter corpos montados e iguais aos de todo mundo?  Cadê oportunidade para dar dicas de sexo da vida real e ajudar aquela mulher que nunca fez um boquete no marido em 30 anos pois não faz ideia de como proceder? Cade espaço na mídia para discussões reais sobre sexo que não envolvam ginecologistas falando de “pênis” e “vaginas”? Cadê programas que tratem de sexo e relacionamentos de verdade sem precisar de globais fazendo gincanas?  Cadê milhões de reais para serem investidos numa educação sexual decente nas escolas – e não aquelas aulas dignas de dó dadas por professoras de ciências que não transam há 7 anos?

Por isso, minha gente, fica aqui um recado – aproveitem tudo o que queiram aproveitar nesse carnaval que vem chegando e façam tudo que sua consciência permitir. Mas não se esqueçam de trazer um pouco de toda essa liberdade inventada para a vida real em vez de ficar sonhando com o do ano que vem, quando terá mais uma vez a chance de se libertar dos seus tabus, pois, como já dizia o sábio, não se pode esperar muito de pessoas que vivem de futebol, de carnaval e de televisão.

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