EU SÓ TE QUERO

A grande questão que sempre pesa antes de se entrar em um relacionamento é o fator “será que ele/ela vai me fazer feliz?”. Com essa premissa inicial, a tendência é que você escolha alguém de quem goste, com a qual se sinta bem, que esteja disposto a estar ali por você e que te faça se sentir como nunca se sentiu antes – ou, pra ser menos hiperbólico, que te faça se sentir bem e feliz. O problema aqui reside em como você deposita os seus objetivos, as expectativas e as projeções numa única pessoa e a torna cofre de um monte de sentimentos que pertencem a você. E que, consequentemente, deveriam estar sob a sua responsabilidade.

Existe uma tendência a se depositar sentimentos e atribuir responsabilidades a quem está conosco numa relação. Nada mais óbvio, é claro. Mas parece que a maioria de nós se esquece de que seres humanos não são seres estáticos. Para cada ação, uma reação diferente. Para cada pensamento, um movimento que implica em alguma consequência. E nessa de achar que o outro é o responsável pela nossa felicidade (pelo humor, ou até mesmo pela condição física que apresentamos), acabamos por nos tornar prisioneiros de uma ordem que funciona assim: ele/ela faz alguma coisa e eu sou atingido diretamente por isso.

Não falo de cumplicidade. Pelo contrário, cumplicidade é quando a gente divide a conta de responsabilidade em 50% para cada um. Quando a gente faz alguém de repouso ou de porto seguro, a gente acaba se condicionando a uma relação de hierarquia com quem amamos. Aquele tipo de relação que, quando acaba, leva tudo de nós embora e não deixa nada. Porque não soubemos realizar o nosso papel de participante no relacionamento e “entregamos de bandeja” todas as nossas vontades e o desejo de que alguém nos faça feliz. Usar alguém como repouso é um dos fatores que alimentam a velha suposição de que mais ninguém no mundo vai fazê-lo feliz depois de uma pessoa. O sentimento de felicidade (assim como outros sentimentos) é mutável e não deveria ser utilizado para culpar ou projetar responsabilidades em alguém que não a si mesmo.

Quando você se repousa em alguém, você decreta a si mesmo um contrato de permanência. Você não tem liberdade para descobrir novas formas de desenvolver seus sentimentos e acaba por regular o que sente à ação do outro. É confortável essa medida passional de abrir mão e declarar ao outro a sua guarda, ao mesmo tempo em que o torna dependente direto. E daí nasce a expectativa como a gente vivencia: ele/ela pode me fazer feliz e eu serei feliz apenas com ela/ele. É a condição de achar que só se obtém felicidade pela ação do outro e desconsiderar a sua própria. Mas nada é certo, nada garante que o outro tenha as mesmas certezas e se sinta responsável pelo o que você sente. E sobre a premissa inicial da escolha de alguém, acho que a pergunta correta deveria ser: será que eu posso me fazer feliz e levar um relacionamento que dependa tanto de mim quanto da outra pessoa para dar certo? É melhor que repousar num porto seguro e naufragar da mesma forma.

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