EU SÓ QUERO É SER FELIZ

Reclamar da vida é um vício pior que café ou cigarro. Principalmente em lugares onde o caos reina, como nas grandes cidades, estar feliz ou buscar a felicidade é visto como uncool, como besteira de gente que não vive com os pés na Terra. O cara que aplaude o pôr-do-sol é visto como louco – o que reclama do calor do verão e do frio do inverno, não. Porque, pra alguns, bom mesmo é reclamar da vida, usar o FB e o twitter como muro de lamentações, cultuar o lado negro da nossa existência. Afinal, pouca gente consegue lidar com a leveza da felicidade.

Sempre é difícil falar de sentimentos, pois eles não podem ser descritos por palavras. Principalmente para nós, que deixamos de lados nossos outros sentidos, e confiamos nas transmissões de ideias e sentimentos através da fala. Daí a gente passa a vida toda tentando explicar fenômenos como a felicidade. O que significa ser feliz? É possível sermos felizes ou somente estarmos felizes? Essa questão é tão complexa, que em idiomas como na língua inglesa, ser e estar é uma coisa só – “We are happy” pode ser tanto somos felizes, como estamos felizes.

Eu vejo uma grande diferença entre os dois termos.

Acredito, humildemente, que felicidade é algo que se busca todos os dias. Temos uma mania nociva que tende a nos levar pra baixo em muitos momentos da vida. Vemos sempre mais razões para reclamar das coisas, do que para celebrá-las. É aquela história de ver o copo meio vazio ou meio cheio. Como quando acordamos atrasados para ir trabalhar e, ao chegar na garagem, a bateria do carro acabou. Como seres mimados que somos, reclamamos que a vida é injusta, que isso tem que acontecer justamente com a gente, bem no dia que estávamos atrasados. Estupidamente, reclamamos da vida quando deveríamos dizer – “Acabou a bateria, mas UFA, que bom que eu tenho pernas pra andar até o metro e dinheiro para pagar minha passagem.” A ingratidão reina. (aliás, tem um ótimo tumblr chamado Classe média sofre que retrata maestralmente os seres egoístas que somos, vale o clique.)

E são exemplos assim que me fazem pensar na metáfora da bifurcação, quando pensamos em felicidade – o tempo todo, somos sujeitados a situações nas quais nos vemos em frente a uma bifurcação. Como no caso do carro sem bateria – assim que você constata o problema, você fica de frente para duas estradas – a do lado negro (e mais tentadora) que é reclamar, mal-dizer, ficar de mau-humor. E a do lado da luz – pensar que sempre poderia se pior e agradecer por todos os outros presentes que a vida te dá.

A sua escolha nesses momentos, determina o caminho que você traça diariamente na sua vida. Ora, pois se nesse exato momento, você está onde está, isso se deve a suas escolhas – sejam elas boas ou ruins. Se você sempre escolhe o lado negro, você vai entrando num túnel de sombra, que deixa seus dias pesados, dolorosos, sofridos. Seu mau-humor por causa do carro vai fazer com que você chegue no trabalho nervosa. Aí a recepcionista vai falar algo com você e você dá uma patada – claro, como poderia ser diferente. E aí você responde a um email com tolerância zero. Sua amiga te liga e você despeja nela sua lista de problemas. E assim por diante, até que, no fim do dia, você constata (ou não, o que não muda nada) que você não teve um dia feliz. E, o pior de tudo, com a sua energia pessimista, você contaminou milhares de outras pessoas – as que não estavam preparadas e com o corpo fechado, com certeza foram contaminadas e espalharam a energia ruim para muitas outras. Assim inicia-se um ciclo.

Mas o ciclo também pode ser do bem, quando você escolhe o caminho da luz em frente as dificuldades da vida. O carro ficou sem bateria – tudo bem, o que não tem remédio, remediado está. Você vai para o trabalho de ônibus apertado, mas em vez de reclamar, dá graças a Deus por não ter que depender do transporte público todos os dias. E aí do próprio ônibus, você liga para o seguro, que guinchará seu carro até a próxima mecânica. Pronto. Com um pouco de reflexão, você mais uma fez escolheu estar feliz. A dor é inevitável, o sofrimento é opcional. Sua energia boa contaminará outras pessoas e, mais uma vez, inicia-se o ciclo – dessa vez, na luz.

Por isso, acredito que a busca pela felicidade seja eterna. Se felicidade nada mais é do que a feliz + idade, há somente um momento para sermos felizes – o de agora. O amanhã, ninguém sabe, e o ontem foi-se. E se é melhor ser alegre que ser triste, devemos ter como meta de vida buscar a felicidade em cada momento, em cada dia, em cada conversa. Ninguém disse que seria fácil, por isso afirmamos que ser feliz é pros corajosos. Pra aqueles gratos, que enxergam o valor dos presentes na vida. Uma borboleta que entra numa sala, pode ser para alguns um inseto horroroso e assustador e pra outros um sinal divino. Determina-se isso, através das bifurcações invisíveis da vida.

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