ONDE FOI PARAR O AMOR????

A gente ouve o tempo todo que casar por amor é uma péssima ideia e que o sexo tem que ser bom para conseguir sustentar uma relação. Isso converge com a ideia de que a nossa Era, dita “moderninha”, é apressada e as pessoas não tem mais tempo para criar laços muito profundos, nem se apaixonar, se é que isso ainda existe no pensamento contemporâneo das grandes cidades. Quando a gente vira e diz que é ingenuidade pensar em amor, a gente acaba por se proteger (e por descartar) a ideia de que amor existe. Para conquistar uma liberdade sexual que era necessária e uma ideia de atitude onde ser esperto é o que importa, a gente modificou um bando de valores e sentimentos. Ou pior: a gente deixou isso tudo para trás.

Outro dia desses, num papo sobre traições e como o diálogo sobre sexo ainda é um grande tabu e uma barreira para casais atualmente, uma amiga me chamou a atenção para o fato de que a gente costuma dar crédito ao sexo pelos problemas de um relacionamento. Fica bem óbvio que relacionamento nenhum se sustenta só com carinho e afeto, mas com boas doses de paciência, entendimento, confiança e condições materiais que possibilitam uma união, seja ela oficial ou não. Só que isso me fez pensar sobre como a gente anda construindo relações mais vazias em prol do exercício da liberdade sexual. Parece que, quanto mais a gente luta pelo direito de fazer o que quiser no sexo, mais a gente acaba se esquecendo de que o nosso objetivo era melhorar uma parte da relação que era oprimida. Sexo tem relação direta com prazer físico, com intimidade, com parceria e procriação. Mas também faz parte dessa coisa bacana que a gente acredita ser o amor.

E daí a gente acaba por pensar: e se aquele guri bacana que a gente conheceu e anda saindo não for tão bom de cama assim? Então não vale a pena considerar o resto? Será que o sexo numa relação assumiu uma proporção em que ele importa mais do que outros fatores como a sensação de amar alguém e a luta diária de um casal para manter esse sentimento vivo? Acho que a nossa geração acabou por fazer a coisa errada. Em vez de transformamos os valores obsoletos que oprimiam a questão sexual e deixavam lacunas em aberto numa relação, nós deixamos coisas serem perdidas pelo caminho e construímos outro tipo de valor. O valor sexual que se sobrepõe aos outros. As pessoas se tornaram obcecadas pela alta performance na cama em vez de um papo interessante, pelo tamanho do pau do cara em vez do caráter dele, pelo entendimento completo do Kama Sutra em vez de tentar entender o outro. Construímos relações que se esgotam na cama e que não saem mais dela. A gente trocou a busca por amor – talvez fantasiosa e ingênua – pela busca pela satisfação sexual, que é competitiva e selvagem, onde quem deixa a desejar não tem vez.

Pode ser exagerado pensar assim e considerar que a gente não tenha obtido um equilíbrio até hoje. Mas a verdade é que o amor em si foi deixado de lado e se perdeu em meio a tantas buscas. Amor mesmo, esse sentimento clichê e piegas que todo mundo recrimina quando o outro fala, mas busca interna e intensamente. Amor que foi trocado pela adrenalina e diversão do sexo. E, à amiga que me fez ver o outro lado da moeda, eu deixo a resposta do título: o amor foi parar em algum lugar no qual muita gente ainda não conheceu, mas ele está por aí. Um dia a gente esbarra nele de novo e descobre que ele também é gostoso e dá prazer. Um dia a gente retoma a busca e encontra algum equilíbrio. Nem se for pra concluir que cada um é que decide como regular a balança numa relação.

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