AMOR VIRTUAL

CORAÇÃO (6)

Tudo parecia brincadeira. Ele era primo de uma amiga que sempre dizia que deveríamos nos conhecer. O encontro ainda não aconteceu, mas me pergunto o que vai acabar rolando quando estivermos frente a frente. Depois de mais dois anos conversando, trocando e-mails, mensagens e virando confidentes um do outro, passamos a ter um carinho que, diz ele e juro eu, não temos por muitas pessoas que vemos frequentemente em nossas rotinas. Pessoas, essas sim, que podem nos tocar, nos abraçar e fazer mais do que simplesmente escrever todos os dias. Nunca levei fé nessa coisa de manter laços virtuais. Sim, eu tenho amigos que foram para fora do Brasil, que estão em outros estados e, por que não citar?, parentes que só falo por telefone ou internet, mas que eu sei que estão lá. Só que é diferente. Você nunca ter visto a pessoa na sua frente e chega a duvidar que ela exista (mesmo ele conversando por uma webcam), é surreal. Não acreditamos porque não conseguimos encarar o fato de que, mesmo a uma inacreditável distância, alguém pode nos fazer tão bem. E ele me fazia bem.

Chegamos ao ponto em que não fazia mais sentido não receber uma mensagem de bom dia, perguntar como foi o dia e desejar “boa sorte” antes dos grandes acontecimentos que cada um ia tendo pela vida. Era inevitável alguns períodos sem nos falarmos, mas três dias já era um intervalo estranho demais para nós. Tenho certeza de que, no início, omitíamos certas informações. Eu não precisava contar se saído com alguém e nem ele me dizer se alguma menina nova tinha pintado. Só que aí, sempre acontece alguma coisa para mexer conosco.
Num belo dia ele vira pra mim e diz “Tô quase namorando”. Nossa, que legal, eu comentei. Ele me contou sobre como tinha conhecido a menina, como eles eram parecidos, de como ela fazia ele dar risada, de como ele escrevia umas coisas pra ela, como foi o primeiro beijo. Pára. Não precisa contar mais nada, eu disse. Fui abatida por uma crise de ciúmes que parecia entrar pelo fio da internet e deixar uma mensagem bem grande, parecendo um anti-vírus que te avisa: ela está MORRENDO de ciúmes!
Foi complicado. Passamos um tempo sem se falar e eu pensando que também o fazia rir, também éramos parecidos e que também tínhamos nos conhecido de uma maneira bem diferente. Tá, eu nunca tinha me declarado. Mas aquilo que subiu em mim quando senti que poderia perdê-lo, não era normal. Pensei, quer saber?, vou me declarar. Escrevi um e-mail gigante contando tudo e até do meu ciúme. Na hora de mandar, amarelei. E me arrependi.
Exatamente dois dias depois, a prima dele me liga e a gente começa a conversar. Como que eu pensaria em qualquer outra coisa? Antes de ser prima, ela era minha amiga, certo? Falamos da vida, de música, cinema e até de futebol. Aí, ela vira e pergunta: tem falado com o meu primo? Emudeci. Disse que sim e perguntei inocente “por quê?”.

– Ah, por nada. É que ele tá vindo me visitar no feriadão.

Oi? Sério? Como? Por quê? Quando? Não, quando eu sabia. Meu coração disparou. Será que ele traria a namorada? Será que a gente se conheceria? E como seria? Por que eu não tinha mandado a porra do e-mail? Ele percebeu meu nervosismo e riu. Contou que sabia o que vinha rolando e que a primo já tinha vontade de vir me conhecer. E aproveitava pra ver a família.

– Faz assim – disse a prima – finge que eu não te contei, apesar dele ter pedido pra eu te contar. Vai conversar com ele. Eu sou amiga dele também e sei que vocês vinham se enrolando cada dia mais. E pode deixar que tudo que você escondeu dele e eu sei, eu não contei. Quem vê vocês dois falando um do outro sabe que tem mais coisa aí.

Fiz o que ela falou. Mandei uma mensagem, duas, nos falamos e ele disse que vinha ao Rio visitar a família sim. Perguntou se a gente podia se ver, eu disse que sim. E cá estou eu. Dentro do carro, em frente ao prédio da minha amiga/prima dele, e estou suando. Mas… E se não der certo? E não for nada daquilo que a gente imaginou? E se toda aquela afinidade foi coisa de internet? E se…?

Ele desce. Abre a porta do carro.

Nossa, o sorriso dele consegue ser mais lindo ainda do que pela tela do computador.

Onde eu coloco as minhas mãos?

– Oi.
– Oi.
– E agora?
– Agora é sem volta. Que bom.
– O que é bom?
– Você é de verdade.
– Isso tudo é verdade.

E eu sempre achei que fosse brincadeira.

Anúncios

Um pensamento sobre “AMOR VIRTUAL

  1. linda historia, fiquei até com inveja desse seu amigo… O cara de sorte… Tem coisas que agente nem consegue explicar né….

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s