Arquivo | julho 2012

ESVAZIE SUAS GAVETAS

Já ouviram falar dos “acumuladores”? Acumuladores são pessoas que passam anos e anos guardando coisas que não têm a menor importância, literalmente inundando casas inteiras com tralhas inúteis, tranqueiras que há tempos deveriam ter sido jogadas no lixo. Isso é completamente assustador, não é? Mas pense bem, olhe agora mesmo para as inúmeras gavetas transbordantes existentes dentro de você e reflita: Será que você também não é um acumulador de coisas com o prazo de validade vencido? Será que você não é um acumulador de pessoas que há tempos só causam-lhe dor de cabeça? Será que você precisa mesmo andar por aí todo torto e carregando essa mochila lotada de chumbo?

Pensou bem? Ainda está em dúvida se você é um acumulador? Então, me responda: Por que é que você pediu um tempo para ele e preferiu deixá-lo congelado quando, na verdade, sabia que deveria ter terminado tudo? Por que é que você evita sempre o ponto final e geralmente opta pelos três pontos? Por que é que você está aí rastejando e continua agarrada com todas as forças aos pés de alguém que te olha como se você fosse uma barata? Você faz isso, pois tem medo de perder e não achar nada para suprir esse suposto vazio, mas já parou para pensar que o melhor caminho para dar espaço às coisas boas é jogar fora as coisas ruins? Eu sei que é preciso de muita coragem e que não é fácil, mas o que você prefere? Continuar com esse comodismo e manter um chiclete sem gosto na boca só para dizer que está mascando algo? Ou simplesmente jogar esse chiclete fora e dar a chance para novos sabores?

Decrete, então, a hora da limpeza. Respire fundo, arregace as mangas e, enfim, abra mão do peso morto que insiste em aniquilar seu presente e impedir que novos acontecimentos deem play nessa sua existência em pause.

Esqueça a música do Leandro & Leonardo e aprenda de uma vez por todas a dizer adeus. Saiba que é preciso cortar definitivamente os laços que já não enfeitam mais e que hoje tornaram-se apenas nós enroscados em nossos pescoços, sufocando e impedindo a oxigenação do nosso cérebro com novos ares.

Enquanto você adia a hora de dizer tchau ao que não importa, está também postergando a chance de ouvir um oi daquilo que realmente importará. Abra o armário e olhe bem para aquela calça velha e me diga: quando foi a última vez que você a usou? Então por que não se livra disso agora, ou melhor, dê ela a alguém que com certeza ficará muito feliz em usá-la.

A verdade é que, para escalar esta montanha íngreme chamada vida, precisaremos nos livrar de todo o peso que só serve para dificultar a nossa subida. Ou acha que algum dia chegará ao cume se continuar com essa mania de encher os bolsos até com as pedras inúteis do caminho? Muitas vezes aceitar a perda é o primeiro passo para estar apto para um novo ganho. E, enquanto você não soltar de vez aquilo que não te agrega mais, estará sempre com as mãos ocupadas para agarrar novas oportunidades.

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DESAPAIXONADOS

O amor vicia. Amar faz de nós completamente tolos e drogados capazes de fazer qualquer coisa por qualquer pessoa. Quando amamos alguém, automaticamente queremos essa pessoa mais perto de nós a cada minuto da nossa rotina. Queremos que ela nos entenda mais do que a nós mesmos, apesar disso nunca acontecer (talvez seja esse o motivo das ilustres DRs). E daí vem os famosos finais de semana no cinema, ligações na madrugada, mensagens de “bom dia” ou de “bons sonhos”, apelidos ridículos, e reclamações dos nossos amigos que não se conformam com tamanha falta de tempo. É, o amor faz isso, é tudo culpa dele.

Conheço pessoas que têm tanto medo dessa droga que é incapaz até de tentar usá-la. Se dizem “não-apaixonados” natos, mas acredito que isso tenha outro nome. Insegurança. Essa história de que não é o momento de se apaixonar é uma grande hipocrisia dita por quem sofre daquele mal. Daquele famoso mal que não nos deixa ficar pendurados na janela do 21º andar, ou que nos proíbe de fazer sexo sem camisinha. O medo. É, as consequências podem ser assustadoras. O medo nos faz enxergar as coisas diferentes. É como aquela última vez que tentou começar uma dieta na segunda-feira. Disse isso na sexta, mas teve uma outra visão quando chegou segunda. É assim também. Falar que não é do tipo que se apaixona é só mais uma forma de se defender dessa (terrível) droga. Falar que não é o momento, ou que está sem cabeça pra isso, só mostra o quanto de tempo você está perdendo, em vez de tentar ser feliz logo de uma vez. E isso não quer dizer que você não seja feliz solteiro. Só quer dizer que você pode ter alguém para compartilhar a sua felicidade e vivê-la com você.

O grande problema é que a maioria dos “não-apaixonados-inseguros” não querem mudar seus status para “em um relacionamento sério”. -A vida já é séria demais, e logo a nossa diversão dos finais de semana vai se tornar séria também? Ah, não. Confundem relacionamento com posse, e qualquer sentimento que deve ser levado a sério causa um leve desespero. Mas ainda há aqueles que gostam do desafio. Gostam do desafio de se envolver, de se jogar de cabeça quando o coração fala mais alto. É uma droga tão alucinante que até os “não-apaixonados-inseguros” um dia caem na real e veem que precisam dela.

O amor não é o tipo de droga que se escolhe, ele acontece. E o acontecer é muito mais incrível do que qualquer situação tão fortemente forjada. Viver esse acontecer faz parte do nosso crescimento. É também uma das coisas que formam a nossa personalidade. Tanto para nós, quanto para as pessoas ao nosso redor.

E quem insiste em dizer que ainda não é o momento, desculpe a ousadia, mas é porque provavelmente essa droga já está te afetando. Falta só coragem para usá-la.

EXPECTATIVAS

Hoje ele veio me falar das flores. Das flores, do jardim, das estações, do rio que corria em sua vida, do medo. Hoje ele veio me falar de expectativas. Dessas que a gente sufoca o outro sem ver, miudinhas, rotineiras, demasiadamente fantasiosas. Pensei no mundo, nos outros, pensei em mim.

Lembrei-me de todos os meus sonhos de adolescente e quantos deles já tinham ficado para trás simplesmente porque existiam expectativas demais, fundamentadas em realidade de menos. Pensei em quantas vezes sufoquei um relacionamento por esperar demais do futuro, em quantas pessoas perdi por esse caminho por simplesmente não ter a leveza necessária para deixar o rio da vida correr por si só. A dura verdade é que num mundo onde amar virou sinônimo de coragem, a gente por vezes tem um pouco de ansiedade com o amanhã. Ou a grande palavra do momento: pressa. A gente tem medo de acabar a tia solteirona na festa de aniversário do filho da melhor amiga, ou de passar a vida inteira sem conhecer prazeres como decorar o quarto do casal ou escolher o primeiro sapatinho do bebê. Ainda mais atemorizante, a gente tem medo de acabar só no deleite de nossa própria companhia, o que implicaria em liberar do armário escuro e sombrio todos os nossos monstros particulares que tanto relutamos em esconder. A consequência de tanta pressa são casamentos precipitados, relacionamentos forçados, rompimentos precoces e amores que são causa ao invés de serem efeito. Em outras palavras, o resultado se configura em expectativas demais, derramadas súbita e integralmente em cima de pessoas que, naquele momento, podem não estar preparadas para corresponder. Reticências pontuando frases que mereciam boas vírgulas e um ponto final.

Pensei em caminhos, descaminhos, escolhas. Pensei em quantas vezes culpamos o destino, o universo, Murphy e o karma por uma realidade diferente da que a gente esperava. Em quantos milhões de desculpas arrumamos para o comportamento divergente do outro e para tantas atitudes (ou falta delas) para silenciar a dor e a ansiedade que alimentamos em silêncio. Queremos encontrar culpados para um crime que nós mesmos cometemos: a pressa de uma escolha. Nem karma, nem Murphy, nem uma força maior somada a um infortúnio de coincidências. Nós escolhemos estar ali e queremos que o outro faça essa mesma escolha em um tempo que na verdade é inteiramente nosso.

Clichê, mas a vida é mesmo um grande rio sinuoso, em constante movimento. Nós, somos apenas bons navegantes que temos a sorte de poder escolher a direção, a velocidade e a bagagem que levaremos pelo caminho, que nos instiga a correr o risco do inesperado correnteza afora, ou nos intimida através do medo, limitando nossa trajetória ás margens próximas onde supostamente existe segurança. Se arriscar, significa aceitar o que o rio tem a oferecer de peito aberto, com a consciência tranquila que nada que a correnteza traz é ao acaso. É acima de tudo, saber respeitar os momentos de cheia e seca que a natureza impõe, sabendo que tudo na vida são fases, com estações passageiras feitas para o corpo d’água se recompor e seguir inteiro, sem fragmentos de viagens passadas, pronto para novas turbulências.

Hoje ele veio me falar de perspectivas. Aquilo que a gente inventa, sem deixar que simplesmente seja. Pensei no tamanho e na fluidez da bagagem que muitas vezes levamos no nosso pequenino barquinho, na “malinha” cheia de expectativas, frustrações e dores de amores mal curados. Cacos e peças desconexas que não fazem mais parte do quebra cabeça do presente e que deveríamos ter deixado para trás, liberando espaço para uma bagagem, de fato, enriquecedora. Afinal de contas bagagem que guarda tristeza e sofrimento, pesa e a gente só abre pra quem demonstra reciprocidade. Quanto mais leve a mala, mais fluido o barco desliza pelo rio. Calmo, natural, como tem que ser.

Penso sobre passado, presente e futuro. Penso sobre amor e toda sua eternidade no breve espaço de um segundo. E finalmente entendi, que expectativa gera frustração sim, apenas quando depositada sobre ombros despreparados. Preparo exige calma e tempo. Construir vontades também. Porque ir devagar, na maioria das vezes é muito mais rápido.

Sentada ali no parapeito da janela, vendo o sol deixar esse lado do mundo para poder iluminar os dias daqueles que estão tão distantes, observando os carros passando velozes pela rua, os passarinhos buscando seus ninhos, me dei conta de que no fundo eu e o resto do mundo só queremos um lugar pra voltar.

Hoje ele veio me falar do medo. E eu, sem nenhuma expectativa, falei pra ele de amor. Fluimos. Com a leveza de um agora vivido sem pressa nenhuma.

ESPELHO DO AMOR

Essa é uma carta de amor. Só que nessa carta falo mais de mim do que de você. Porque estar com você é estar comigo. Explico já. Estar com você, no final das contas, é estar diante do grande espelho da minha vida. É quando tenho a chance de conhecer meu jeito de amar, as minhas necessidades, expectativas e escolhas que faço para nossa história, pra minha história.

Quando me enxerguei no espelho do amor, deixando aquela ideia fracassada de tentar te mudar, me libertei. Me libertei da busca pelo cara certo, de pintar você como o cara certo e passei a querer ser eu uma pessoa melhor para se relacionar. Fiquei humilde diante do meu desejo de amar e ser amada. Quis ser merecedora disso.

O espelho do amor não está apenas nas conversas francas e profundas, quando falamos tudo às claras. Está, sobretudo, no seu maior defeito, na sua pior mania, na coisa mais irritante que você faz. Coisa que, ironicamente, passa a ser matéria prima de felicidade. Por que essas coisas me irritam? Por que elas chamam minha atenção? Por que ponho tanta energia nelas?

Pra chegar em respostas, fiz uma lista das coisas que me irritam em você. E tive uma grande surpresa – sabe quem eu encontrei nelas? Eu! Eu irritada com tudo o que não quero para minha vida. Mas lá estou, em muitos momentos sendo exatamente aquilo que detesto em você. É o macaco que olha pro próprio rabo. E aí penso: até que ponto essas coisas irritantes são suas e o que elas falam de mim? Então, te conto o que aprendi ao olhar para o espelho:

1. Que preciso aprender a pedir desculpa, a parar de inventar desculpas,a assumir estar errada e pronto. Que prazer, que liberdade de ser imperfeita. Só quero de você que esteja lá, comigo, me mostrando aquilo que quero melhorar. Por mim e, depois, por nós.

2. Parei de me desgastar cobrando de você atitudes e comportamentos que refletem necessidades minhas que não lhe cabem. Perceber e aceitar isso são jeitos de estar menos egoísta, idealizando que você seria a fonte para atender 100% das minhas necessidades. Imagina. Tirei de você a responsabilidade de me fazer feliz. Eu me faço feliz. Só que escolhi fazer isso também do seu lado porque você tem muito pra me oferecer.

3. Você é pra mim fonte de amor, carinho, afeto, diversão, prazer. Mas estou aprendendo a ter isso em outros lugares. Porque eu quero tantas formas de amor, carinho, afeto, diversão e prazer. E tantas outras coisas que nem passam pela nossa relação. Quero coisas demais pra deixar isso tudo na sua mão, sabe?

4. Você é leve. Seria uma agressão e uma burrice tirar isso de você deixando a minha felicidade por sua conta. Eu te quero leve. Trazendo leveza pra minha vida. Então, certos dramas que são só meus, eu já não quero que se resolvam na nossa relação. Desses dramas cuido eu, enquanto reservo para nós as delícias da vida que me fazem rir dos dramas que agora já se tornam até um pouco ridículos quando reconheço as coisas boas que temos juntos.

Este texto é pro mundo e é de presente pra você. É porque com você eu conheci o espelho do amor. Eu resolvi olhar pra ele, mas se você não bancasse com tranquilidade ser o meu espelho e persistisse entregando pro tempo e pra minha escolha a responsa de eu aprender com o que você me mostra, eu hoje não teria a clareza que tenho sobre isso que me faz sentir tão viva. E a gente nem estaria juntos. Pois seria tão simples pra qualquer um dos dois pular fora do barco na hora da crise. Eu já pulei fora de barcos em outros amores. Valeu a pena. Vivi tudo o que tinha que viver. Aprendi com isso, coloquei coisas novas na mala e cheguei até você. Hoje me parece bom persistir. Também é mérito seu eu ter motivos pra isso. Você merece que eu espelhe de volta toda a sua generosidade de refletir para mim o que é preciso fazer pra fazer crescer em contentamento e sinceridade a minha história, que inclui a nossa.

Falando em generosidade, quero frisar que o amor é generoso e que amar alguém é encarar o espelho do nosso ser. Ele está lá, escancarando coisas da nossa vida. A escolha é olhar com os olhos de quem quer ver.