Arquivo | março 2013

AMOR VIRTUAL

CORAÇÃO (6)

Tudo parecia brincadeira. Ele era primo de uma amiga que sempre dizia que deveríamos nos conhecer. O encontro ainda não aconteceu, mas me pergunto o que vai acabar rolando quando estivermos frente a frente. Depois de mais dois anos conversando, trocando e-mails, mensagens e virando confidentes um do outro, passamos a ter um carinho que, diz ele e juro eu, não temos por muitas pessoas que vemos frequentemente em nossas rotinas. Pessoas, essas sim, que podem nos tocar, nos abraçar e fazer mais do que simplesmente escrever todos os dias. Nunca levei fé nessa coisa de manter laços virtuais. Sim, eu tenho amigos que foram para fora do Brasil, que estão em outros estados e, por que não citar?, parentes que só falo por telefone ou internet, mas que eu sei que estão lá. Só que é diferente. Você nunca ter visto a pessoa na sua frente e chega a duvidar que ela exista (mesmo ele conversando por uma webcam), é surreal. Não acreditamos porque não conseguimos encarar o fato de que, mesmo a uma inacreditável distância, alguém pode nos fazer tão bem. E ele me fazia bem.

Chegamos ao ponto em que não fazia mais sentido não receber uma mensagem de bom dia, perguntar como foi o dia e desejar “boa sorte” antes dos grandes acontecimentos que cada um ia tendo pela vida. Era inevitável alguns períodos sem nos falarmos, mas três dias já era um intervalo estranho demais para nós. Tenho certeza de que, no início, omitíamos certas informações. Eu não precisava contar se saído com alguém e nem ele me dizer se alguma menina nova tinha pintado. Só que aí, sempre acontece alguma coisa para mexer conosco.
Num belo dia ele vira pra mim e diz “Tô quase namorando”. Nossa, que legal, eu comentei. Ele me contou sobre como tinha conhecido a menina, como eles eram parecidos, de como ela fazia ele dar risada, de como ele escrevia umas coisas pra ela, como foi o primeiro beijo. Pára. Não precisa contar mais nada, eu disse. Fui abatida por uma crise de ciúmes que parecia entrar pelo fio da internet e deixar uma mensagem bem grande, parecendo um anti-vírus que te avisa: ela está MORRENDO de ciúmes!
Foi complicado. Passamos um tempo sem se falar e eu pensando que também o fazia rir, também éramos parecidos e que também tínhamos nos conhecido de uma maneira bem diferente. Tá, eu nunca tinha me declarado. Mas aquilo que subiu em mim quando senti que poderia perdê-lo, não era normal. Pensei, quer saber?, vou me declarar. Escrevi um e-mail gigante contando tudo e até do meu ciúme. Na hora de mandar, amarelei. E me arrependi.
Exatamente dois dias depois, a prima dele me liga e a gente começa a conversar. Como que eu pensaria em qualquer outra coisa? Antes de ser prima, ela era minha amiga, certo? Falamos da vida, de música, cinema e até de futebol. Aí, ela vira e pergunta: tem falado com o meu primo? Emudeci. Disse que sim e perguntei inocente “por quê?”.

– Ah, por nada. É que ele tá vindo me visitar no feriadão.

Oi? Sério? Como? Por quê? Quando? Não, quando eu sabia. Meu coração disparou. Será que ele traria a namorada? Será que a gente se conheceria? E como seria? Por que eu não tinha mandado a porra do e-mail? Ele percebeu meu nervosismo e riu. Contou que sabia o que vinha rolando e que a primo já tinha vontade de vir me conhecer. E aproveitava pra ver a família.

– Faz assim – disse a prima – finge que eu não te contei, apesar dele ter pedido pra eu te contar. Vai conversar com ele. Eu sou amiga dele também e sei que vocês vinham se enrolando cada dia mais. E pode deixar que tudo que você escondeu dele e eu sei, eu não contei. Quem vê vocês dois falando um do outro sabe que tem mais coisa aí.

Fiz o que ela falou. Mandei uma mensagem, duas, nos falamos e ele disse que vinha ao Rio visitar a família sim. Perguntou se a gente podia se ver, eu disse que sim. E cá estou eu. Dentro do carro, em frente ao prédio da minha amiga/prima dele, e estou suando. Mas… E se não der certo? E não for nada daquilo que a gente imaginou? E se toda aquela afinidade foi coisa de internet? E se…?

Ele desce. Abre a porta do carro.

Nossa, o sorriso dele consegue ser mais lindo ainda do que pela tela do computador.

Onde eu coloco as minhas mãos?

– Oi.
– Oi.
– E agora?
– Agora é sem volta. Que bom.
– O que é bom?
– Você é de verdade.
– Isso tudo é verdade.

E eu sempre achei que fosse brincadeira.

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CIÚMES

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Ninguém gosta de admitir que sente ciúmes, mas, ao mesmo tempo, todo mundo sente. Se você não sente, pode parar de ler esse texto. Ele não foi feito pra você. Entretanto, se você, assim como eu, sente esse sentimento maldito e abençoado, junte-se aos bons. E aos maus, que usam qualquer desculpa para justificar seus atos ciumentos. Eu defendo o direito de sentir ciúmes. Aquela coisa saudável de alfinetar o parceiro sobre qualquer coisa suspeita que ele diga, ainda que seja tudo fruto da nossa imaginação. Só que de uma forma leve, que demonstre o quanto você gosta e que, no fundo, represente o quanto a pessoa é importante na nossa vida. Imagina se você não teria medo de perder alguém seja lá pro que for. Ter esses ataques bobos é mais um jeito de dizer “hey, você é especial pra mim!”. Pode surgir por “n” motivos, ou por nenhum mesmo. O trabalho que afasta as pessoas, uma atividade que gera um certo conflito, ou até uma simples noite em que um dos dois resolve sair com os amigos. Isso sem a gente falar nos ex-namorados que rondam as nossas vidas como fantasmas e pseudo-amigos sem moral nenhuma que dão em cima de quem está com a gente (ainda que algo que ocorra somente na nossa cabeça). Veja bem, não quero que ninguém saia por aí dizendo que é válido ter ciúmes e por isso vão começar discussões sem pé nem cabeça. Ciúme é bonitinho quando para e não cresce e não vira algo pior. Nada justifica uma agressão, ainda que apenas verbal, a alguém. Mostrar que se importa, ter uma rusguinha aqui ou alfinetada ali é, sim, compreensível, mas deixem as histórias horrorosas de atrocidades cometidas em nome do “ciúme” para as páginas policiais. Isso deixa de ser amor, deixa de ser qualquer traço de afeto. Isso é doença. Se acabar rolando uma briga, tudo bem. Faz um esforço para pedir desculpas e ficar numa boa. Aproveita pra ter aquele sexo gostoso de reconciliação e segue a vida. Manere-se. Você terá sempre o direito de sentir as coisas, mas suas liberdades terminam quando começam as do parceiro. Apimente a relação com ciuminho, mesmo bobo. É legal saber que alguém tem ciúme da gente. Só não exagere no tempero. Tem gente, como eu, que não suporta comida muito condimentada. 64742_560229573997902_1757313555_n

SEXO FRAGIL???

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Foi-se o tempo em que nós, mulheres, éramos escolhidas, mas nunca podíamos escolher. Hoje já é mais que natural: se uma mulher tiver vontade, ela pode – ou melhor, deve – chegar em um cara. Afinal, é uma delícia tomar a iniciativa. Mais que um deleite, é uma conquista. Mais ação, menos força do pensamento. Menos mandinga, simpatia ou qualquer coisa que traga o ser amado em menos de sete dias. Temos e podemos usar nossas lindas pernas com meia-calça fio 20 e salto 15 para caminhar e ir atrás do que queremos. Porque, antigamente, com as regras morais que nos haviam sido impostas, dependíamos totalmente das forças da natureza para que algo acontecesse.

Isso me lembra os bailinhos da quinta série, sabe? As meninas levavam um prato de doce ou salgado, e os meninos uma garrafa de coca-cola de 2 litros. Aí as garotas ficavam sentadas no salão, uma do lado da outra, enquanto rolava alguma música pop romantiquinha grudenta dos anos 90 – provavelmente “More Than Words” ou ‘Iris” – e esperavam que os meninos, timidamente, caminhassem em sua direção e puxassem-nas pela mão para dançar o dois-pra-lá-dois-pra-cá com aquele combo desajeitado de mãos no ombrinho/mãos na cintura. Ou seja, eram eles que tinham o poder de escolha. A nós restava apenas ficar parada como uma estátua em exposição, usando a força do pensamento, mentalizando o nome do garoto paquerado e torcendo para que ele nos escolhesse – o que raramente acontecia.

Agora a coisa mudou: podemos continuar sendo conquistadas, mas também somos capazes de conquistar. E isso é uma evolução tanto para as mulheres quanto para os homens. Afinal, eles devem se sentir aliviados por não carregar mais o peso nas costas de sempre caber a eles ter que tomar a iniciativa. Não que busquemos como ideal a inversão total dos papéis – longe disso. O que almejamos é a construção de novos papéis, nos quais homens e mulheres possam exercer seus desejos de forma livre e igualitária. E que a mulher não seja subjulgada por romper com o papel que lhe foi imposto e que não lhe cabe mais. Mas será que conseguimos mesmo exercer esses nossos desejos? O grande problema é que, sempre que você chega em alguém, a possibilidade de tomar um fora é iminente. E nem todas as mulheres sabem lidar com essa variável.

Já escutei de várias amigas a clássica indignação após um toco tomado: “Acredita que ele me dispensou?”, proferida com um tom incrédulo típico de quem se esquece da pequena variável citada acima. Peraí: assim como quando um cara chega em você e você tem o direito de dar ou não abertura e querer algo mais, o inverso também é válido. Não é porque temos a iniciativa que estamos imunes de quebrar a cara. E com isso, cai abaixo a teoria de que “chegar em homem é fácil, porque, se você for minimamente bonitinha, você não leva fora”. Então quer dizer que o homem deve aceitar qualquer par de peitos que bater à porta? E os sentimentos e compromissos que, assim como qualquer ser humano, eles também têm?

O que muitas mulheres não entendem é que é preciso maturidade para lidar com a rejeição. Talvez, um agravante histórico que influencie nessa falta de preparo feminina ao encarar o monstro da rejeição seja todos os anos em que a mulher interpretava o papel de donzela indefesa presa no castelo esperando pelo príncipe que iria resgatá-la. No posto de “ser conquistada”, era a mulher que rejeitava, ela que decretava o “não” quando achava oportuno. Além disso, a recusa dela também era parte do jogo de conquista, era parte do “charme” bancar a difícil. Agora, além de desfrutar o bônus, elas têm que aprender a lidar com o ônus do feminismo. Não basta criar coragem o suficiente para chegar em um cara, é preciso também maturidade emocional, plenitude espiritual e autoestima elevada para segurar o possível “não”. Tudo resume-se um uma palavra: segurança. A mulher tem que estar segura de si e saber que escutar um “não” não significa o fim do mundo.

Te broxei de qualquer tentativa de tomar a iniciativa? Não fica assim, não. O monstro da rejeição nem é tão feio quanto o pintam. Aliás, a beleza de todo o início da (fase da sedução) está exatamente na incerteza das mãos geladas e trêmulas de um coração ansioso. Fala verdade, o que seria do friozinho na barriga, na hora da conquista, se você já soubesse que a resposta final seria um “sim”?