Arquivo | agosto 2012

ESPELHO DO AMOR

Essa é uma carta de amor. Só que nessa carta falo mais de mim do que de você. Porque estar com você é estar comigo. Explico já. Estar com você, no final das contas, é estar diante do grande espelho da minha vida. É quando tenho a chance de conhecer meu jeito de amar, as minhas necessidades, expectativas e escolhas que faço para nossa história, pra minha história.

Quando me enxerguei no espelho do amor, deixando aquela ideia fracassada de tentar te mudar, me libertei. Me libertei da busca pelo cara certo, de pintar você como o cara certo e passei a querer ser eu uma pessoa melhor para se relacionar. Fiquei humilde diante do meu desejo de amar e ser amada. Quis ser merecedora disso.

O espelho do amor não está apenas nas conversas francas e profundas, quando falamos tudo às claras. Está, sobretudo, no seu maior defeito, na sua pior mania, na coisa mais irritante que você faz. Coisa que, ironicamente, passa a ser matéria prima de felicidade. Por que essas coisas me irritam? Por que elas chamam minha atenção? Por que ponho tanta energia nelas?

Pra chegar em respostas, fiz uma lista das coisas que me irritam em você. E tive uma grande surpresa –  sabe quem eu encontrei nelas? Eu! Eu irritada com tudo o que não quero para minha vida. Mas lá estou, em muitos momentos sendo exatamente aquilo que detesto em você. É o macaco que olha pro próprio rabo. E aí penso: até que ponto essas coisas irritantes são suas e o que elas falam de mim? Então, te conto o que aprendi ao olhar para o espelho:

1. Que preciso aprender a pedir desculpa, a parar de inventar desculpas,a assumir estar errada e pronto. Que prazer, que liberdade de ser imperfeita. Só quero de você que esteja lá, comigo, me mostrando aquilo que quero melhorar. Por mim e, depois, por nós.

2.  Parei de me desgastar cobrando de você atitudes e comportamentos que refletem necessidades minhas que não lhe cabem. Perceber e aceitar isso são jeitos de estar menos egoísta, idealizando que você seria a fonte para atender 100% das minhas necessidades. Imagina. Tirei de você a responsabilidade de me fazer feliz. Eu me faço feliz. Só que escolhi fazer isso também do seu lado porque você tem muito pra me oferecer.

3.  Você é pra mim fonte de amor, carinho, afeto, diversão, prazer. Mas estou aprendendo a ter isso em outros lugares. Porque eu quero tantas formas de amor, carinho, afeto, diversão e prazer. E tantas outras coisas que nem passam pela nossa relação. Quero coisas demais pra deixar isso tudo na sua mão, sabe?

4.   Você é leve. Seria uma agressão e uma burrice tirar isso de você deixando a minha felicidade por sua conta. Eu te quero leve. Trazendo leveza pra minha vida. Então, certos dramas que são só meus, eu já não quero que se resolvam na nossa relação. Desses dramas cuido eu, enquanto reservo para nós as delícias da vida que me fazem rir dos dramas que agora já se tornam até um pouco ridículos quando reconheço as coisas boas que temos juntos.

Este texto é pro mundo e é de presente pra você. É porque com você eu conheci o espelho do amor. Eu resolvi olhar pra ele, mas se você não bancasse com tranquilidade ser o meu espelho e persistisse entregando pro tempo e pra minha escolha a responsa de eu aprender com o que você me mostra, eu hoje não teria a clareza que tenho sobre isso que me faz sentir tão viva. E a gente nem estaria juntos. Pois seria tão simples pra qualquer um dos dois pular fora do barco na hora da crise. Eu já pulei fora de barcos em outros amores. Valeu a pena. Vivi tudo o que tinha que viver. Aprendi com isso, coloquei coisas novas na mala e cheguei até você. Hoje me parece bom persistir. Também é mérito seu eu ter motivos pra isso. Você merece que eu espelhe de volta toda a sua generosidade de refletir para mim o que é preciso fazer pra fazer crescer em contentamento e sinceridade a minha história, que inclui a nossa.

Falando em generosidade, quero frisar que o amor é generoso e que amar alguém é encarar o espelho do nosso ser. Ele está lá, escancarando coisas da nossa vida. A escolha é olhar com os olhos de quem quer ver.

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DA PRA SER AMIGA DO EX ???

A data de aniversário dele forma os dígitos da sua senha do cartão de crédito. Seu pijama favorito é aquela camiseta velha, do dobro do seu tamanho, que ele esqueceu na sua casa. Você tem guardado na sua memória olfativa o cheiro do pescoço dele, e consegue evocá-lo várias vezes ao dia quando a saudade bate. O jeito como afina o violão, como estaciona o carro, como mistura as proporções de leite com café, mostarda e ketchup,  você usurpou dele. Aquele livro, inspiração pra vida, foi ele que te presenteou. Aquela banda que não sai mais do seu iPod, foi ele que te apresentou. Aquele filme que você se esvaiu de chorar as 13 vezes que assistiu, foi ele que baixou no seu computador. Tudo o que você quer dizer ele consegue capturar com um olhar. O jeito como você transa, como se esparrama na cama ao seu lado depois de um orgasmo, como derruba levemente a cabeça para a direta enquanto o beija, como se aproveita para apoiar no espacinho entre o ombro e o pescoço dele quando o abraça levemente embriagada é ele, é tudo ele. É tudo dele.

Aí, um dia, o seu relacionamento termina, e tudo o que você tinha como chão se desaba. Quando isso acontece, a gente se tenta se livrar do ex com a mesma aspereza de quem pisa numa bituca de cigarro. Espera esquecer suas lembranças jogando fora aquela caixa cheia de tickets de cinema e ingressos de shows que vocês viram juntos, também se livra daquela rosa, já seca, que ele te deu quando você foi conhecer os pais dele, e daquele chumacinho de cabelo que você tinha guardado quando ele raspou a cabeça ao entrar na faculdade. Rasga todas as fotos em que ele está presente. Queima todas os cartões, bilhetes, post-its, recados em folha de caderno e papel de bombom que possuem a caligrafia dele. Despacha todos os CDs e DVDs que ele tinha te “emprestado”. Deleta o número do telefone de seus contatos, exclui do facebook, bloqueia no twitter, coloca o email dele na lista de spam. Na maioria das vezes é assim. Eliminamos aquela pessoa de nossas vidas para que com ela partam junto todas as dores e memórias ruins daquele relacionamento. Tentamos nos livrar dele, tirá-lo de nosso corpo, pra nos livrarmos do sofrimento de ter que conviver com a sua ausência.

Nenhum término é fácil. É claro que precisamos passar por todas as fases do luto, negar, xingar, ficar com raiva, se deprimir para aí então superá-lo. Mas acredito que pessoas (aquelas que são importantes mesmo) não são descartáveis. Não vejo sentido em extinguir bruscamente uma pessoa que foi tão significativa, que ajudou a construir quem você é, como se riscasse um item de uma lista de compras. Muitas vezes não conseguimos nos desfazer de um vestido velho que não usamos mais, porém, na maioria das vezes, quando um relacionamento acaba rejeitamos o ex de vez da nossa vida. Queremos tirá-lo do nosso coração, mas acontece que quando se elimina alguém assim tão marcante de nossas vidas, um pedacinho nosso vai embora junto com essa pessoa.

É claro que não dá pra manter o contato com o ex da noite para o dia. Bancar o “amigo” só para ficar por perto esperando o momento de uma recaída: isso é autoenganação, é autoflagelo, é confundir ainda mais os sentimentos de uma relação já desgastada. É preciso de um tempo para acalmar o coração, para separar passado de presente, para o seu cérebro entender que aquela chavinha de liga/desliga da paixão está em mode off pra tal pessoa. Todo fim precisa ser aceito (por ambas as partes) em nome de uma amizade. Acredito que sentimentos tão fortes – como o amor – não somem assim do nada. Eles sublimam, se transformam. Podem até se transformar em raiva por determinado tempo, mas acho que isso é passageiro. Quando a gente ama/amou alguém, a gente se importa, e isso nunca muda. Não tô falando de virar melhor amiga do seu ex, mas de manter um contato, de querer saber como a vida dele anda, de se sentir bem por suas conquistas. Depois de um tempo, essa sublimação de sentimentos entre ex-namorados torna-se o afeto entre dois antigos conhecidos com aquele ar de intimidade.

NAMORO OU X-BURGUER

Quando eu achar um namorado minha vida vai ser mais feliz: discurso daquela com sérios problemas de autorrealização. Quando eu achar um namorado vou transar todo dia: discurso da ninfomaníaca iludida. Quando eu achar um namorado vou emagrecer três quilos e ficar linda para ele: literalmente, o discurso de quem empurra com a barriga. O famoso “quando eu achar um namorado” nada mais é do que a fantasia de um sonho que todas as filhas de Afrodite tiveram, têm ou terão. O grande erro é sempre esse: o monstro da idealização.

Nem discutirei sobre o setor de “a procura do príncipe encantado”, todas nós, depois de muito custo, já descobrimos que ele não existe. Ainda assim, gerações e gerações esperam que em algum “reino tão, tão distante” lá estará ele, o homem dos sonhos, o pai dos filhos, o marido exemplar, o namorado à moda antiga ou seja lá qual for a nomeação mentirosa que você quiser dar. A verdade, minha querida, é que um dia, seja aos quinze, aos vinte ou aos vinte e cinco anos, você vai descobrir que esses são os dois dos grandes erros responsáveis por aquela velha frase de “eu não sou feliz”. O primeiro e mais corriqueiro é sonhar que um dia você encontrará ao acaso um ser do sexo oposto e lá estará a placa dizendo “Este é o seu príncipe encantado, agarre-o em três, dois, um.. já!”. O segundo é a idealização de supor que ao achar um namorado a felicidade vem de brinde. E não vem, é difícil acreditar, eu sei, mas não vem.

Quando você achar um namorado você vai ficar feliz, mas entre o ficar e o ser feliz, existe um longo caminho. Caminho no qual você terá que lembrar todo dia o que é cultivar um relacionamento. E isso pode parecer batido e antigo, mas é a pura verdade. Porque assistir filme toda sexta-feira cansa, transar na mesma posição enjoa, ver o outro com “roupa de ficar em casa” faz perder todo o encanto, dar beijo com bafo de acabei de acordar só é lindo no primeiro mês, ter que ir à festinha de aniversário da sobrinha dele em pleno sábado faz você sonhar com a balada. E aí, se não você não souber cultivar, se você não souber sair da rotina, se você não souber inovar, minha amiga, seu namoro estará fadado ao fracasso.

Você também precisará saber, antes mesmo de começar um namoro e de naufragá-lo com suas projeções de “namoro ideal” e expectativas frustradas, que estar junto com alguém não faz com que você se torne esse alguém, e que a personalidade do outro não deve fugir das mãos da pessoa e se alojar em você. E que não se deve mudar por ninguém, nem por osmose, nem por amor. É muito bonito e romântico dizer que “agora somos um”. Mas não são, quando você estiver com diarréia, é você por você mesmo. Quando você se voltar para seus pensamentos e se perguntar se é mesmo com essa pessoa que você deseja estar até o fim da vida, é você com você mesmo. E quando você fizer aquelas coisas que todo mundo faz quando ninguém vê, é você, você mesmo e só. O outro não tem nada a ver com isso. E é bom que não tenha, porque é preciso cuidar da sua própria individualidade para que sua vida não saia do eixo. Porque antes de ser dois, era um. E mesmo acompanhados, em alguma hora, ainda estamos sós. E não há erro nenhum nisso.

Erro é se vestir com os sonhos de menininha do papai e achar que só porque existe uma aliança no dedo existe uma aliança de vida. Erro é deixar de dar risadas com as amigas porque agora você é séria e passeia domingo na praça de mãos dadas. Loucura é esquecer-se de si, e pensar sempre no agrado do outro em primeiro lugar. O amor não é se doar, nem se doer. Amor é muito mais que isso. Amor é tudo aquilo que eu ainda nem sei. Mas já dizia minha avó que toda união deveria ser feita dessas cinco coisas: amizade, admiração, paixão, tesão e amor. E não importa em qual ordem esses sentimentos aparecessem, o que não poderia nunca acabar, são os dois elos da ponta: a amizade e o amor. Concordo com ela. Mesmo porque, todas as vezes em que decidi sair sem guarda-chuva, e ela o mandou levar, choveu.

Com todos os argumentos socráticos que eu poderia ressaltar prefiro ficar com toda simplicidade que os ensinamentos dessa simpática senhora podem trazer e também com o óbvio, mas que parece estar tão esquecido em nossas mentes jovens, neuróticas e contraditórias: namoro, casamento, acasalamento ou relação casual, enfim, onde existe a relação mútua entre duas pessoas, deve haver cultivo, individualidade, amizade e amor. Deve haver, antes de tudo, a vontade de estar com o outro até em Marte se possível fosse. Deve se jogar fora todas as idealizações de namoro dos sonhos e entrar com os dois pés na realidade de um namoro de carne e osso, com todos os prós e contras que isso pode trazer. Caso contrário, é melhor comer um x-burguer. É melhor fazer qualquer outra coisa que não seja tentar viver com alguém. Se nossa própria companhia já nos entedia vez ou outra, é preciso coragem pra enfrentar o amargo e o doce que existe em toda união.

HOMEM DE VÊNUS

Os homens de Marte que me perdoem, mas ter dado um rolê cultural por Vênus é fundamental. Homens de Vênus são a salvação da espécie. Possuem um olhar apurado para o sentimento humano, feminino ou masculino, pois sabem que não é o que existe no meio das pernas que faz com que uma pessoa precise de mais ou menos cuidado. Mas ah, quando amam, os homens de Vênus são imbatíveis.

Não poupam mãos, dedos, língua, não poupam a fricção da pele e os apertões de coxas, a lambidinha suave atrás da orelha, não poupam o soprinho na nuca, a ponta dos dedos suaves por cima da calcinha. Mas nos poupam (thanks, Afrodite!) das tão temidas britadeirices. Homens de Vênus se jogam no desconhecido que é o corpo do outro. Outro homem, outra mulher. Tanto faz, ser um homem de Vênus não significa ser gay ou ser hétero, significa tão somente isso: ser de Vênus.

Homens de Vênus, quando amam, não têm medo de DR e até curtem, às vezes mais do que as mulheres. Homens de Vênus querem resolver tudo logo para dar beijo e abraçar forte e sentir que apesar dos desentendimentos, tudo vai ficar bem. E não é que fica?

Homens de Vênus querem carregar todas as nossas malas, adorariam pagar a conta do restaurante [quando podem], mas são extremamente gentis e abrem mão do “cavalheirismo” para que suas mulheres vivam como querem: pagando suas próprias contas e levando sua própria bolsa pra lá e pra cá. Sozinhas, na balada com as amigas, veja só.

Homens de Vênus choram de. Homens de Vênus cozinham para. Homens de Vênus brocham quando. Homens de Vênus lavam roupas porque. Homens de Vênus sentem medo se. E não se sentem seres de outro planeta por.

E é por essas e outras que eu prefiro homens de Vênus. Porque vim de lá também. Porque não quero me sentir um ET por ter sentimentos, calor, um jeito mais suave de fazer amor. Porque não quero ficar pensando em estratégias para conquistar, meios de me defender, artimanhas para atacar. Afinal, o que eu quero são parceiros pra vida. Não combatentes de guerra.