A SOBREMESA PRIMEIRO

Gosto de tudo o que vai contra à “ordem natural” das coisas. Tudo o que contraria as normas de etiqueta me é bem vindo. Admiro pessoas sem medidas. Daquelas que são ocupadas demais para seguir manuais, que riem demais, choram demais, que guardam ressentimentos e mágoas de menos, que amam demais, com muita força, mas sem força de vontade alguma para controlar a intensidade do seu amor, da sua paixão, suas vontades, seus desejos. Pessoas que mudam de prato favorito, que não temem o novo, que compram passagens só de ida, que não se fecham em inseguranças, que pisam no acelerador, que anseiam por liberdade, que não perdem tempo com frescuras, que tem sede, que querem tudo aqui e agora, que querem tudo nesse instante e segundo, que buscam intensidade ao viver porque sabem que cada minuto passado é um minuto gasto e por isso é preciso fazer valer à pena.

Acredito que subverter algumas “regras” de conduta moralmente aceitas – e silenciosamente impostas – nos faz ver a vida de um novo ângulo, descobrir um outro horizonte, chacoalhar o massante cotidiano e às vezes se abrir para uma nova realidade. Por isso, sou entusiasta de toda forma de protesto para fugir dessa monotonia da banalidade do dia-a-dia. Seja esse protesto “silencioso” ou não, contido na forma daquele indivíduo que pula ou inverte alguma etapa entre o nascer, estudar, arranjar um bom emprego e se casar, ou no simples ato de colocar o arroz por cima do feijão, dizer o predicado antes do sujeito e do verbo, traçar novos caminhos ao voltar pra casa, ou simplesmente resolver pular a refeição principal e partir logo para a sobremesa. Ah, a sobremesa.

Simpatizo com todo tipo de relação que inverte a lógica cultural brasileira: quer comportamento mais auto explicativo de tal transgressividade do que transar de cara no primeiro encontro? Quem faz sexo casual tem a chance de se libertar das amarras culturais e entender que o desejo é algo natural, que nāo vem necessariamente acompanhado de amor, e que o sexo é uma forma de expressá-lo. E daí que a “etiqueta sexual” (isso existe mesmo?) sugere deixar o sexo para depois de “se conhecerem melhor”? E se eu quiser comer primeiro a sobremesa? Qual é o problema de pular a entrada?

Desde cedo fomos educadas a fechar as pernas. As revistas femininas bombardeiam manuais de como conquistar o namorado perfeito em sete passos, e neles o sexo só vem lá depois do quarto encontro. E eu nunca entendi como essas “dicas” ainda são propagadas já que nenhum relacionamento é como uma equação de segundo grau, que tem fórmula e resultados exatos. Não é possível padronizar as relações humanas. Não há como racionalizar sentimentos. Não existe nenhuma fórmula de báskara aplicável para relacionamentos.

E é por isso que fico intrigada ao me dar conta de que ainda é difundida a verdade absoluta de que “sexo afasta homens”. Como pode uma relação de intimidade, de entrega, de tamanho envolvimento, quando rola sintonia, expelir alguém? O sexo casual não é nada mais que uma inversão de protocolos sociais. É pular a entrada e partir para o prato principal. É poder ter o direito de escolher. Às vezes o prato do dia pode não ser muito do nosso agrado, mas também podemos ter uma deliciosa surpresa e querer repeti-lo sempre sem dar bola pro resto do cardápio. Está duvidando? Pois saiba que uma recente pesquisa comprovou que o sexo pode fazer os homens se apegarem e desejarem um relacionamento sério – inclusive com prostitutas. Quer maior exemplo de relação invertida: em que o envolvimento emocional vem depois da interação química? Veja bem, não estou defendendo que um tipo de relação seja melhor que a outra, longe disso, só acredito que às vezes o amor pode fugir de todos os padrões e florescer de onde menos se espera. Bruna Surfistinha que o diga. Simples assim.

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